segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

ENTENDA O SAMBA-ENREDO DE 2020 DA MANGUEIRA




A Verdade Vos Fará Livre


Samba-enredo Mangueira 2020

Análise do samba-enredo da Mangueira: A Verdade Vos Fará Livre

Assim começa o texto de apresentação do samba-enredo da Mangueira em 2020, escrito por Leandro Vieira, que dá aos jurados e ao público uma ideia do que esperar do desfile da agremiação:
Nasceu pobre e sua pele nunca foi tão branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância.

Mangueira
Samba teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também


Como adiantamos, a Mangueira foi a campeã do carnaval carioca em 2019 com um desfile fortemente marcado pelas críticas sociais. Dentre as personalidades históricas homenageadas, a principal foi Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018.

Marielle Franco homenageada no desfile da Mangueira em 2019

Com a vitória, a agremiação foi alvo de críticas e acusações. Por isso, o início do samba-enredo pode ser visto como uma resposta da Mangueira, falando sobre o quanto a escola permanece firme, forte e unida, sem se deixar abalar pelas más línguas.
Além disso, a letra é narrada em primeira pessoa por Jesus Cristo. Portanto, isso também significa que a Mangueira tem a bênção de Cristo.

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no Buraco Quente
Meu nome é Jesus da Gente


A explicação para a estrofe acima é dada no texto de apresentação do samba-enredo.
Misturando a história bíblica com a versão imaginada por Leandro Vieira, a letra lembra que a imagem de Jesus Cristo preso na cruz representa todos nós. Logo, ele não pode ser retratado apenas como uma figura branca e masculina.
Já o verso moleque pelintra no Buraco Quentetraz uma ambiguidade: o moleque pelintra, tanto pode ser o menor de idade maltrapilho que anda pelo Buraco Quente, local onde a Mangueira foi fundada, quanto uma referência a Zé Pelintra, entidade da Umbanda.

De qualquer forma, o que a composição afirma é que Jesus Cristo é homem, é mulher, é negro, é indígena e pode ter qualquer religião. Na versão moderna, ele é Jesus da Gente, nascido na Mangueira.

Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão


A história de Jesus da Gente traz referências às lutas de minorias por direitos civis. O punho cerrado, por exemplo, é um símbolo de resistência muito empregado por movimentos sociais.

A composição nos lembra, ainda, as origens humildes do Jesus bíblico, compartilhadas por muitas pessoas nas favelas e periferias.

Presépio

Dessa forma, a letra defende que caso Jesus voltasse à Terra nos dias de hoje, ele nasceria pobre dentro de uma comunidade, vivendo ao lado dos mais oprimidos e protegendo os seus semelhantes.

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão


Em seu retorno, Jesus se espantaria em ver sua imagem sendo exibida em tantos lugares — desde cordéis até a estátua do Cristo Redentor, localizada no morro do Corcovado —, e questionaria se o povo havia entendido mesmo a sua palavra.


Cristo Redentor


No final, se sobrevivesse às estatísticas destinadas aos pobres que nascem em comunidades, chegaria aos 33 anos para morrer da mesma forma, diz o texto do carnavalesco. Ou seja, se vivesse nos dias de hoje, Jesus Cristo seria perseguido por quem prega a violência e a intolerância. No lugar de uma cruz, seria morto por um fuzil.

No entanto, a letra traz uma mensagem de resiliência, afirmando que nos períodos mais sombrios é que a esperança de um mundo melhor se fortalece.

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem Messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço Fé na minha gente
Que é semente do seu chão


Aqui há uma referência à passagem bíblica em que Jesus fala sobre a maneira espiritual como vemos a vida:
São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão! (Mateus 6:22-23)

No contexto da letra, pega a visão seria um alerta de Jesus da Gente para o povo, pedindo para que desistam de esperar que a solução venha de um Messias armado, às custas da morte das pessoas, e percebam que só há futuro possível através da partilha, da tolerância e do amor.

Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E Ressurgi no cordão da liberdade


Após a morte, Jesus da Gente ressuscitaria na Mangueira, durante o carnaval.
Ao longo dos três dias de festa, o Filho de Deus iria confraternizar com seu rebanho: quarando tambor, se livrando do fardo da cruz e brincando em total harmonia, na liberdade que só a verdade proporciona.

Um pouco mais sobre a Mangueira

Fundada em 28 de abril de 1928 por sambistas como Cartola, Zé Espinguela, Saturnino Gonçalves, entre outros, a G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira ganhou esse nome em referência à primeira parada do trem, que partia do Centro do Rio de Janeiro para o subúrbio, onde havia samba.

Brasão da GRES. Primeira de Mangueira


As cores verde e rosa foram escolhidas por Cartola em homenagem ao Rancho do Arrepiado, onde o músico passava o carnaval durante a infância. Além de Cartola, outro sambista emblemático da Mangueira foi o Mestre Jamelão, que atuou como intérprete da agremiação durante mais de 50 anos.
Uma das mais adoradas escolas de samba da cidade, a Estação Primeira de Mangueira é a segunda maior vencedora do carnaval do Rio de Janeiro, colecionando 20 títulos. 


Fonte: Analisando letras · Por Renata Arruda / Créditos das fotos: Divulgação

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