ONHB






**LINKS COM QUESTÕES DAS PROVAS ANTERIORES DA ONHB



1ª ONHB - CLIQUE  AQUI

2ª ONHB - CLIQUE  AQUI

3ª ONHB - CLIQUE  AQUI

4ª ONHB - CLIQUE AQUI

5ª ONHB - CLIQUE AQUI

6ª ONHB - CLIQUE AQUI

7ª ONHB - CLIQUE AQUI

8ª ONHB - CLIQUE AQUI

9ª ONHB - CLIQUE AQUI

10ª ONHB - CLIQUE AQUI

11ª ONHB - CLIQUE AQUI




Imagem relacionada

LEIA AQUI O REGULAMENTO


**************************************



DICAS:

  • Quanto às questões de múltipla escolha há um ponto extremamente importante a ser relevado: não é igual uma prova comum.
  • Isso porque dentre as 4 alternativas disponíveis, 3 estão certas e 1 está errada, sendo que dentre as 3 certas, uma é mais certa que todas as outras. De acordo com a alternativa que você marcar você ganhará (0, 1, 4 ou 5) pontos, sendo 0 a errada e 5 a mais certa.

  • A olimpíada fornece charges, trechos de livros, letras e clipes de músicas, trecho de artigos, obras artísticas (e qualquer outro tipo de texto, verbal ou não verbal), além de links no final de cada questão como referências de estudos. (Ainda explanaremos melhor isso).





FASE 1 -
QUESTÃO 1




"Família, primeiramente eu queria deixar bem claro
Que eu não to aqui pra representar o rap feminino não, certo?
E muito menos o masculino
Eu to aqui pra representar o rap nacional
E eu peço que respeitem a minha identidade de gênero, demorou?
Ficou mais ou menos assim

Caneta e papel na mão
Pra mim é melhor que remédio
Enquanto eu vou escrevendo
Não sobra espaço pro tédio

Aonde eu vou parar, não sei
Eu tô pensando a mais de um mês
E o que eu tenho visto
Eu vou falar procêis

É tanta arrogância, tanta prepotência
A sanidade tá escassa no mundo das aparências
Não se cale jamais diante do opressor
Não deixe que o sistema acabe com seu amor

Ae, Triz! O seu som é muito bad
É que, irmão, isso é rap
Quer dançar, escuta Ivete

Poesia visionária que atinge o coração
Eu falo sim da tristeza pra que haja compreensão
E como de costume eu vou tocando na ferida
Falando dos preconceitos sofridos no dia a dia

O rap existe pra mostrar
A verdade e a dor
É um grito de dentro pra fora
Clamando pelo amor

Ae, motô
Boa noite pro sinhô
Preciso chegar no centro
Posso entrar por favor?

Vai lá menor
Mas vê se não se acostuma
Te aviso quando chegar
E cuidado por essas ruas

Tamo junto, irmão, boa sorte na caminhada
A multa já foi constada, então vamos nessa bala
Sempre na humildade cê consegue o que quiser
E eu tô nessa jogada até quando dá pé

E já que o flow é meu
Eu vou mandando é logo a boa
Essa é a minha realidade
Não gostou, procura outra

Já tenho muito perreco
Pra me preocupar
Faltou a companhia
Na minha sala de estar

Eu gosto daquela dama
O cheiro dela na minha cama
Nossos corpos são iguais
E juntos vão ardendo em chama

Mas não tô aqui
Pra desmerecer ninguém
O que mais tem no mundo é gente
Não vai faltar pra você, irmão

Vou te falar a situação
Vários preconceituoso sem respeito e sem visão
É vários fiscal de cu, muita alienação
Foda-se se o mano é gay, o que importa é o coração

E eu já me liguei como funciona o preconceito
Mas sinto em te informar que não tamo pra escanteio
Se te falta o respeito, cê não sabe de nada
Segue no seu caminho que eu vou na minha estrada

Onde isso vai parar?
Se eu nasci com dom, eu sei que vou continuar
Eu cheguei na cena, fiz um poema
Pro seu coração escutar

O preconceito não te leva a nada
Não seja mais um babaca de mente fechada
Por que o ódio mata, mas o amor sara
De qual lado cê vai ficar?

Brasil, país que mais mata pessoas trans
Espero que a estatística não suba amanhã
Me diz, por que o jeito de alguém te incomoda?
Foda-se se te incomoda
É meu corpo e minha história

E sobre a minha carne, cê não tem autoridade
Não seja mais um covarde, de zero mentalidade
Seja inteligente, abra a sua mente
O mundo é de todos, não seja prepotente

Seja gay, seja trans, negro ou oriental
Coração que pulsa no peito é de igual pra igual
O individual de cada um não se discute
Seja elevado, busque altitude

Zé povinho falou: Vai fazer a sobrancelha
Dar um trato no cabelo e mudar sua aparência
Eu acho que é mulher, eu acho que é um homem
Eu acho que cê tem que vestir esse uniforme

Primeiramente: você não tá na minha mente
Segundamente: seu raciocínio é deprimente
O que cê acha de mim, num importa irmão
Que diferente de você, eu tenho educação

Não tenho obrigação de dar satisfação
Mas aqui, cê tá ligado que é pura informação
E pra quem quer saber, o meu gênero é neutro
Cê não precisa entender, só precisa ter respeito

Você não ganha nada sendo um atrasa-lado
Seu conservadorismo já tá ultrapassado
Cê quis me derrubar ainda dando risada
Mas a luz da minha luta sua bala não apaga

Você me insultou julgando minha aparência
Só se esqueceu de ver o brilho da minha essência
Falou do meu cabelo, meu dente separado
Mas garanto que elas não reclamam do que tem provado

Elevação mental
Nesse flow que eu vou levando sempre na moral
Hipocrisia me rodeia e os bico paga um pau
Mas sigo firme, nada abala o meu ideal, irmão

E não tire suas conclusões sem saber do meu proceder
Antes de falar mal de mim, te convido a me conhecer
Um salve pra quem fecha, que os moleque são da hora
Em meio a tanta maldade ainda tem quem se salva

Onde isso vai parar?
Se eu nasci com dom, eu sei que vou continuar
Eu cheguei na cena, fiz um poema
Pro seu coração escutar

O preconceito não te leva a nada
Não seja mais um babaca de mente fechada
Por que o ódio mata, só o amor sara
De qual lado cê vai ficar?"

MARQUE O ITEM



(A) A “elevação mental” implica abandonar o conservadorismo em favor da aceitação da diferença; a canção pede que o interlocutor escolha entre o ódio e o amor.


(B) A canção menciona a violência contra transexuais há muito praticada no Brasil e confirmada por pesquisas recentes como as da ONG Transgender Europe e divulgadas em 2018.


(C) A identidade de gênero difere da orientação sexual de uma pessoa, e pode ser alterada por meio de tratamentos ou uso de determinadas cores.


(D) O conflito entre padrões culturais e a identidade de gênero é tema recorrente na canção.

*************************************


QUESTÃO 2 - 

UM CANTO NO MEU ATELIÊ, 1884 - ABGAIL DE ANDRADE
QUADRO



OBSERVANDO O QUADRO E A TRAJETÓRIA DA ARTISTA PODEMOS AFIRMAR:


Alternativas

(A) Abigail de Andrade recebeu a medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes de 1884, no Rio de Janeiro.


(B) A ideia de “musa” é rompida ao reforçar o domínio técnico e a ação da artista em seu ambiente de trabalho.


(C) O quadro retrata uma pintora que trabalha de costas para quem vê o quadro e conversa com uma mulher que está na janela, foco de luz da imagem.



(D) A pintora na obra busca exemplificar como a natureza morta era um tema fundamentalmente feminino na pintura.

QUESTÃO 3








A Falência (Júlia Lopes de Almeida)

Literatura

“(...) A dor fazia-o desconfiado, temia que o amor da família não subsistisse à catástrofe.

Em que fizera ele até então consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos dela? No dinheiro, só no dinheiro. Ele era bom porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de conforto. Ele era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara a tudo visto que o dinheiro é o dominador do mundo e ele tinha dinheiro.

Ainda não compreendia como tendo trabalhado tanto, juntado com tão tremendo esforço em tão largo período de sacrifícios, deixara agora tudo por água abaixo em tão curtos dias. Desfazer é fácil!

Revoltado contra si, Francisco Teodoro cravou as unhas na calva, chamando-se de leviano e miserável. Como toda a gente que se riria da sua falta de senso. A culpa era dele deixar-se levar por cantigas com a sua idade e experiência! Sentia ferver-lhe o ódio por todos os amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e fúteis. Então todos chamavam o Inocêncio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem consciência. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.

(...)

Pela primeira vez Francisco Teodoro percebeu que há na vida uma coisa melhor do que o dinheiro: a mocidade. (...)

‘Velho... estou velho! Pensava ele, já não sirvo para nada. E agora? Para onde há de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candelária? Nem isso. Camila naquele tempo contentava-se... agora já se afez a outra coisa. Camila! Camila sem sedas? não , não se pode compreender Camila sem sedas. Onde tinha eu a cabeça? Miserável! Eu sou um ladrão, roubei a meus filhos. Eu sou um ladrão!’

Como se quisesse fugir das próprias idéias, começou a andar pelo escritório, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo agonizava com ele.

A especulação, a fraude, a ganância, a traição e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e caráteres. Enganados e enganadores seriam engolidos conjuntamente pela outra falência, de que a sua era uma das precursoras.

No fim, havia de aparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades destes tempos e destes homens doidos, quando depois de tudo consumado, não houvesse nada a refazer mas tudo a criar.

A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção fanática de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada.

Já não culpava o patrício, o Inocêncio Braga, como causa direta da sua ruína. A responsabilidade da sua perda caia em cheio sobre a República, que ele invectivava de criminosa, na alucinação do desespero.

(...)

Francisco Teodoro olhou para a noite:

O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.

O aroma das plantas avivou-lhe também a sensação dos seus triunfos de outrora.

Aquela essência divina nascia da fertilidade das suas terras, trabalhadas por homens pagos por ele.

A criadagem! Como seus criados, menos feliz do que eles, precisava também agora do salário de um patrão, com que matasse a fome à mulher e aos filhos...

- Como Job! Repetiu ele furioso, arrancando as barbas e unhando as faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo físico, a maceração da carne, para completa punição de sua inépcia.

(...) Ele fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.

Cada homem é criado para um fim. O dele tinha sido o de ganhar dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, inutilizado para a ação, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua vida se concentraria num movimento único e decisivo.

(...)

Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado silêncio do sono.

A uma hora Francisco Teodoro levantou-se muito pálido, persignou-se e rezou, ali mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a sua secretária (...)

Francisco Teodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante e enconstava-o no ouvido quando a mulher apareceu na porta, muda de terror, estendendo-lhes as mãos. Ele cerrou logo os olhos à tentação da vida e apressou o tiro.

E toda a casa acordou aos gritos de Camila que, com os braços no ar, clamava por socorro.”


Sobre a obra é possível afirmar

Alternativas

(A) A crítica que a autora faz à República recém-instaurada se dirige não apenas às possíveis consequências da especulação financeira, mas também à normatização imposta pela moral burguesa.


(B) Expoente da escola simbolista, a obra traz em seu enredo personagens contraditórias e psicologicamente densas que representam as instituições republicanas.


(C) O trecho apresenta os dilemas e pensamentos de Francisco Teodoro ao lidar com a sua falência e dificuldade de assumir a culpa pela pobreza a que relegaria a sua família.


(D) O livro de Julia Lopes de Almeida é ambientado nos primeiros anos da República e destaca a crise econômica pela qual passava o país, conhecida como encilhamento.


QUESTÃO 4


Boa Vista mantém recorde da maior paçoca do mundo

Resultado de imagem para a produção da maior paçoca de carne seca do mundo em boa vista

Notícia de jornal

 “O recorde da Maior Paçoca do Mundo continua em Boa Vista, agora são 775 quilos da iguaria, 275 a mais que no ano passado. A pesagem ocorreu na penúltima noite de arraial, ao vivo em pleno Boa Vista Junina, na frente de milhares de espectadores que puderam saborear o prato típico de Roraima. A porção gigante serviu cerca de 25 mil pessoas.

Foram sete pesagens em uma balança gigante [...]. Na quinta pesagem o recorde de 500 quilos do ano passado já havia sido quebrado. A Maior Paçoca do Mundo foi feita em três dias e levou na receita 500 kg de carne de sol, 350 kg de farinha, 150 kg de cebola e 60 litros de óleo. A produção ficou a cargo de 15 pessoas sob o comando de dois paçoqueiros tradicionais de Roraima: Raimundo Costa e João Carlos Souto Maior.

‘Trabalhar com alimento é gratificante, no nosso caso é uma rotina, mas com essa quantidade de matéria-prima foi um grande desafio. Graças a Deus deu tudo certo’, contou João. ‘Em alguns momentos a gente ficou um pouco apreensivo, mas foi gratificante no final porque a gente superou as expectativas’, completou Raimundo.

Segundo o Guinness World Records, o desafio não é realizado em nenhum outro lugar do mundo. ‘Nós esperávamos 700 quilos e para nossa surpresa essa quantidade foi superada. A paçoca é feita com a farinha dos índios Taurepang, da comunidade do Bananal, com ingredientes totalmente regionais, valorizando nossa cultura e gastronomia’, disse a superintendente da Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura (Fetec), Alda Amorim.

Moradores da Comunidade Indígena do Bananal, no Município de Pacaraima, conferiram a quebra de recorde da paçoca que leva na receita um dos principais produtos da região. O tuxaua Tércio da Silva recebeu a primeira porção da maior paçoca do mundo em uma simbólica panela de barro.

‘A gente se sente feliz porque é a segunda vez que a comunidade Bananal fornece a farinha para a maior paçoca do mundo, como reconhecimento de muitos anos trabalhando com esse produto. Foi uma grande responsabilidade, inclusive de representar todas as comunidades indígenas que produzem farinha’ [...]” 



Alternativas

(A) Apesar da popularidade da paçoca, o prato não pode ser considerado um patrimônio no Brasil pela ausência de legislação relativa a bens culturais não materiais.


(B) A difusão do prato em diferentes regiões do Brasil se relaciona com a história das bandeiras e de expedições de tropeiros e garimpeiros pelo interior.


(C) A paçoca de carne seca é um prato de origem indígena feito com ingredientes locais e que variam de região para região.



(D) A produção da maior paçoca de carne seca do mundo movimenta a economia local de Boa Vista e é um índice cultural da cidade.


QUESTÃO 5 -


Tapirussú

Relato de viajante

“Direi desde logo (...) que não existe no Brasil nenhum quadrúpede em tudo e por tudo semelhante aos nossos. (...) O primeiro e mais comum é o tapirussú de pelo avermelhado e assaz comprido, do tamanho mais ou menos de uma vaca, mas sem chifres, com pescoço mais curto, orelhas mais longas e pendentes, pernas mais finas e pé inteiriço com forma de casco de asno. Pode-se dizer que, participando de um e outro animal, é semivaca e semiasno. Difere entretanto de ambos pela cauda, que é muito curta (há aqui na América inúmeras alimárias sem cauda), pelos dentes que são cortantes e aguçados; não é entretanto animal perigoso, pois só se defendem fugindo”.

TEXTO 2

Tatu

Relato de viajante


“O tatu da terra do Brasil, tal qual os nossos ouriços, não pode correr tão rapidamente quanto os outros; por isso arrasta-se pelas moitas; em compensação está bem armado, coberto de escamas fortes e duras, capazes de resistirem a um golpe de espada. Com essa carapaça, fazem os selvagens cestinhos chamados caramento; encurvada parece manopla de armadura. A carne do tatu é branca e muito saborosa. (...)”



Alternativas

(A) As descrições da natureza estão mediadas por valores culturais e pelas percepções do autor.


(B) Apesar de detalhadas e precisas, as descrições revelam o despreparo do autor, que não consegue entender uma realidade diferente daquela com a qual está habituado.


(C) As descrições indicam certo fascínio pelo "exotismo" da fauna brasileira, o que fica evidente por sua riqueza de detalhes.



(D) O autor compara os animais brasileiros àqueles conhecidos pelos europeus, um exercício que contemporaneamente chamamos de produção de alteridade.


QUESTÃO 6

Mapa histórico da fronteira Brasil - Venezuela






A leitura do mapa indica que:

Alternativas

(A) Brasil e Venezuela buscaram incorporar vastas partes do território da Guiana, sendo que a fronteira dessa região foi estabelecida no Império.


(B) As fronteiras são uma convenção e sua demarcação é fruto de um processo histórico de tensões e negociações ao longo do tempo.


(C) No local confrontavam-se interesses por minérios e pelo acesso a importantes bacias hidrográficas, como a do rio Essequibo.



(D) O processo de demarcação das fronteiras entre os três países levou em conta os interesses dos povos nativos ali existentes.

QUESTÃO 7







Lajedo de Soledade - RN

Lajedo de Soledade - rochas

Lajedo de Soledade - Pinturas



Alternativas

(A) Retratam pinturas rupestres no Rio Grande do Norte, consideradas mais rudimentares em comparação a outras registradas no Piauí.


(B) Apresentam o conjunto de sítios arqueológicos brasileiros que auxiliam na construção do conhecimento sobre o processo de ocupação e povoamento do continente.


(C) Mostram parte de um sítio arqueológico, com vestígios pré-históricos da presença humana, onde estão gravadas pinturas rupestres com idades entre 3 mil e 10 mil anos.


(D) Retratam o sítio arqueológico Lajedo de Soledade, de formação rochosa, localizado na cidade de Apodi no Rio Grande do Norte.


QUESTÃO 8-


Cobogó



Dicionário

"cobogó: (substantivo masculino arq, constr; B) - princ. tijolo perfurado ou elemento vazado, feito de cimento utilizado na construção de paredes ou fachadas perfuradas, com a função de quebra-sol ou para separar o interior do exterior, sem prejuízo da luz natural e da ventilação; combogó etim. segundo Aurélio, iniciais dos sobrenomes dos engenheiros Coimbra, Boeckmann e Góis."




Alternativas

(A) O cobogó foi criado e patenteado em Pernambuco, em 1929, e tornou-se uma marca importante também no trabalho de grandes referências da arquitetura moderna brasileira, como Lucio Costa e Oscar Niemeyer.


(B) O dicionário ao remeter ao fato de o termo ter sido criado a partir da primeira sílaba do sobrenome de seus inventores: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis, indica que o termo cobogó é um brasileirismo.


(C) Herança da influência árabe trazida pela colonização portuguesa, o cobogó é um importante aliado em climas quentes e úmidos, já que sua composição permite a circulação de ventos e diminuição da incidência da luz solar.


(D) Dicionários revelam as transformações de um idioma, registrando alterações de grafias e a ampliação e redução de significados de palavras em diferentes períodos de tempo, o que os torna fontes inviáveis para a pesquisa do historiador.



QUESTÃO 9

O Pharol: Diário da Tarde - 13/06/1887



Alternativas

(A) Destaca os benefícios que a energia elétrica pode trazer, como a diminuição de incêndios, a aplicação em sistemas de transporte, a redução de custos na iluminação doméstica e o fornecimento de força para fábricas.


(B) Defende a importância de implantar a eletricidade no Brasil a partir da apresentação de como essa forma de energia vinha sendo empregada mundialmente, em países como Estados Unidos, Rússia e França.


(C) Propõe a substituição da iluminação a gás pela iluminação elétrica, uma vez que visava a utilização do querosene como matéria prima para termoelétricas, tornando o processo sustentável e com preço reduzido.


(D) Traz um discurso de defesa da implantação da eletricidade vinculado à noção de modernização, apresentada como indiscutivelmente benéfica e necessária.




QUESTÃO 10


Leia trechos do artigo da antropóloga e professora da Universidade Federal de São Carlos (SP) Clarice Cohn:

Uma década de presença indígena na UFSCar
Texto acadêmico
“A Universidade Federal de São Carlos completa, este ano, dez anos de sua experiência de Ações Afirmativas. Em um processo que tem início há mais de década, estes anos de formulação do Programa de Ações Afirmativas que culminam em sua instituição em 2007 não foram marcados por consensos, ao contrário. A intenção da universidade, dinamizada pela então reitoria, era a de inverter um quadro em que visivelmente se colocava uma elitização crescente do alunato, propondo medidas para que as diversidades pudessem também contribuir na universidade e garantir o ingresso de uma série de potenciais candidatos que não a estavam acessando tendo em vista o modo de ingresso praticado à época, um vestibular único ofertado pela VUNESP em provas escritas. (...)
Para além disso, comprovou-se que ingressantes por reservas de vagas não têm – muito pelo contrário – rendimento inferior aos demais. (...)
Sendo (...) um por sala, um por cada ano de curso, estes estudantes se perceberam logo em uma situação de extrema visibilidade, o que por diversas vezes significou ser alvo de discriminação. Certamente, a universidade não estava preparada para recebê-los – estamos falando de uma universidade no interior paulista, em uma região que, embora vizinha de diversos povos indígenas, tinha esquecido, ou feito questão de esquecer, a presença indígena no Brasil contemporâneo. Os primeiros docentes que se viram com estudantes indígenas nas suas salas de aula ficaram atônitos: como tratá-los, como ensiná-los?
A primeira coisa que se pode dizer dessa experiência é que a universidade, como um todo, teve que se ver não só com a presença indígena no Brasil, como com sua diversidade. Em salas de aulas (...) estavam presentes indígenas do Nordeste, do Centro-Oeste, do Amazonas; indígenas que tinham o português como segunda língua e indígenas que eram monolíngues em português; homens e mulheres; mais jovens ou mais velhos, com famílias constituídas ou constituindo famílias (...); católicos, evangélicos, xamãs ou sem religião professa; nas ciências humanas, exatas e de saúde.
Estes primeiros estudantes indígenas não demoraram a dar uma resposta e a se manifestar: o primeiro evento comemorativo do Abril Indígena foi realizado em 2008. Ocupando um grande auditório, o Bento Prado, os estudantes organizaram mesas de debates e dançaram o Bate-Pau terena. Nas mesas, a acusação do racismo institucional: em um depoimento, Tauã Terena que cursava Engenharia de Produção, conta que seus colegas, em uma primeira apresentação de power-point por professor, o alertaram: 'ô Indião, as luzes vão se apagar, vai aparecer umas imagens aí na parede, mas não é para se assustar não'. Ele apontava duas coisas: o apelido de Indião, mas principalmente a ideia de que seu pensamento mágico não ia dar conta da tecnologia e que ele, afinal, estava lá, como todos os demais colegas, porque algumas dominava e outras esperava vir a dominar. (...)
As IES [Instituições de Ensino Superior] terão, certamente, que se instrumentalizar melhor para lidar com estas experiências – mas quero ressaltar aqui que, como primeiro ponto, se deve abandonar uma ideia prévia da vulnerabilidade indígena, marcada, me parece, por uma imagem de primitivismo, por uma assunção da quase impossibilidade de 'adaptação' ao meio urbano (de onde, diga-se de passagem, muitos vieram) e universitário, de modo a balancear adequadamente as vulnerabilidades de cada caso com uma responsabilidade de atenção qualificada e culturalmente respeitosa. (...)
Deste modo, deve-se buscar um equilíbrio entre ter as culturas indígenas valorizadas pela universidade e seus conhecimentos reconhecidos, o que é uma das demandas dos estudantes indígenas, mas também reconhecer que parte importante deste esforço deles em estar na universidade é acessar conhecimentos que não acessariam de outro modo (...). Este duplo reconhecimento é, me parece, um desafio da universidade, e uma batalha constante dos estudantes. (...)
Há, no entanto, outra questão de difícil abordagem para a universidade, e que mais amplamente, diz respeito às condições, inclusive corpóreas, de aprendizagem. Que os conhecimentos indígenas são incorporados, e que tratamentos de corpos são parte importante dessa pedagogia, já sabemos (...) – o que não sabemos bem é o que acontece com esses corpos, e como eles aprendem, em um cotidiano universitário. Em primeiro lugar, a pedagogia que se pratica na universidade está pautada pela ex-corporação – salas de aulas ou laboratórios fechados, com iluminação artificial, concentração em poucos pontos, a fala docente, ou dos colegas, o power-point, o computador, o vídeo – e uma ênfase em deixar os sentidos, a não ser pelo estímulo mental, de fora. Tudo é feito para anular os sentidos que não aqueles estimulados no momento, e só para aquele fim – uma experiência nada afeita a uma grande parte das aprendizagens indígenas. (...) Esses desafios passam por corpos, por modos de aprender, por fontes de conhecimento, por relações, por alimentação, por desenvolvimentos de capacidades visuais, e uma série de coisas que são, por princípio, excluídas da universidade. (...)
De todos estes estereótipos, porém, o que revela com maior força a dificuldade de uma instituição universitária na formação de estudantes indígenas, e que, confesso, me surpreendeu quando com ele me defrontei, é a ideia de que a cultura é um fator impeditivo de aprendizado. Embora às vezes pronunciado em eventos públicos, ouvidos em intervenções em seminários, e sempre, como aliás é frequente em formulações discriminatórias, apresentado como preocupação ou boas intenções, esta assunção não é publicizada em documentos e, na maior parte das vezes, ganha a forma de conversas de corredor. Docentes universitários, entendendo-se bem formados, estão prontos a concordar que origens étnicas ou raciais não são impeditivas de aprendizado, e que todos aprendemos igualmente, ou temos as mesmas capacidades – ao invés disso, voltam-se a diferenças culturais para excluir indígenas da possibilidade de sucesso em sua formação universitária. Assim, ouve-se que indígenas não têm capacidade de abstração, e não seriam, assim, capazes de aprender matemática, ou suas elaborações como a temida (por todos os estudantes) disciplina de Cálculo. Ou mesmo, remete-se a 'costumes' uma impossibilidade de estar e aprender em sala de aula, como, por exemplo, quando estudantes indígenas evitam cruzar o olhar com docentes, não se dando o trabalho de imaginar que isso, em si, não é impeditivo de aprendizagem, mas eventualmente um sinal de respeito e um modo praticado de aprendizagem. (...)
Se algo se aprendeu nesta experiência na UFSCar nesta década é o tamanho do desafio de produzir conhecimentos compartilhados, e fazer, de fato, dialogar pedagogias e modos de conhecer de modo a potencializar as propostas indígenas de incorporar novos saberes e novas técnicas a seus conhecimentos. Evidentemente, universidades ganham com as diversidades presentes em seus campi – mas não deveria ser este o ponto e o objetivo de seus programas. O ponto é ampliar conhecimentos, modos de conhecimentos e mundos cognoscíveis. E reconhecer que, para isso, o fazer acadêmico tem que mudar, para não falar do cotidiano das práticas pedagógicas. Para que isso aconteça, evidentemente, a universidade tem que se colocar em xeque.”


Sobre o tema escolha uma das alternativas:


Alternativas

(A) O primeiro vestibular indígena em nível federal do Brasil aconteceu na UFSCar, em 2007, e foi um princípio para uma série de políticas voltadas à inclusão e à diversidade no campus em diferentes níveis – pesquisa, ensino e extensão.


(B) Em muitos casos, práticas educacionais e aspectos relacionados à cosmovisão indígena são desconsiderados no ambiente universitário, o que implica a impossibilidade da eleição de determinadas carreiras e cursos por esses alunos.


(C) O balanço da autora é marcado pela ênfase na atuação dos alunos e comunidades indígenas, que possuem diferentes demandas, como construtores de um novo modelo de universidade que consiga atendê-las.


(D) A presença de alunos indígenas de diferentes etnias, idades e contextos no campus da universidade questiona a persistente visão do indígena como uma figura estereotipada.



FASE 2

QUESTÃO 12- 




Alternativas
(A) O quadrinho critica por meio do humor uma perspectiva racista de materiais didáticos que, em sua maioria, apresentam os brancos como os únicos sujeitos da história.
(B) O quadrinho traz o diálogo de dois personagens: um usa chapéu de cangaceiro e o outro remete à figura do saci-pererê.
(C) Apesar da obrigatoriedade do ensino de História da África e cultura afro-brasileira, muitos livros didáticos continuam a priorizar o registro da história europeia.

(D) O saci, figura conhecida por suas traquinagens, mente para o personagem Xaxado sobre a realidade do livro didático.


QUESTÃO 13

"A Semana”, 16 de outubro de 1892 (Machado de Assis)

Literatura

"Não tendo assistido a inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar.
[...]
Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invisível e amiga. Mas, como íamos em sentido contrário, não tardou que nos perdêssemos de vista, dobrando ele para o Largo da Lapa e Rua do Passeio, e entrando eu na Rua do Catete. Nem por isso o perdi de memória. A gente do meu bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no bond elétrico. Assim fomos seguindo; até que, perto do fim da linha e já noite, éramos só três pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. Os dois cochilavam, eu pensava.
De repente ouvi vozes estranhas, pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente); eram eles mesmos. Como eu conheço um pouco a língua dos Houyhnhnms, pelo que dela conta o famoso Gulliver, não me foi difícil apanhar o diálogo. Bem sei que cavalo não é burro; mas reconheci que a língua era a mesma. O burro fala menos, decerto; é talvez o trapista daquela grande divisão animal, mas fala. Fiquei inclinado e escutei:
 — Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda.
O da esquerda:
— Desde que a tração elétrica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro.
— Claro parece; mas entre parecer e ser, a diferença é grande. Tu não conheces a história da nossa espécie, colega; ignoras a vida dos burros desde o começo do mundo. Tu nem refletes que, tendo o salvador dos homens nascido entre nós, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria cristã. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte.
— Que tem isso com a liberdade?
— Vejo, redargüiu melancolicamente o burro da direita, vejo que há muito de homem nessa cabeça.
— Como assim? bradou o burro da esquerda estacando o passo.
O cocheiro, entre dois cochilos, juntou as rédeas e golpeou a parelha.
— Sentiste o golpe? perguntou o animal da direita. Fica sabendo que, quando os bonds entraram nesta cidade, vieram com a regra de se não empregar chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde é que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros desse tempo entoaram cânticos de alegria e abençoaram a idéia dos trilhos, sobre os quais os carros deslizariam naturalmente. Não conheciam o homem.
—Sim, o homem imaginou um chicote, juntando as duas pontas das rédeas. Sei também que, em certos casos, usa um galho de árvore ou uma vara de marmeleiro.
— Justamente. Aqui acho razão ao homem. Burro magro não tem força; mas, levando pancada, puxa. Sabes o que a diretoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: 'Engorde os burros, dê-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que eles se afeiçoem ao serviço; oportunamente mudaremos de política, all right!'
— Disso não me queixo eu. Sou de poucos comeres; e quando menos trabalho, quando estou repleto. Mas que tem capim com a nossa liberdade, depois do bond elétrico?
— O bond elétrico apenas nos fará mudar de senhor.
— De que modo?
— Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos já precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente às carroças.
— Pela burra de Balaão! exclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? nenhum prêmio? nenhum sinal de gratificação? Oh! mas onde está a justiça deste mundo?
— Passaremos às carroças — continuou o outro pacificamente — onde a nossa vida será um pouco melhor; não que nos falte pancada, mas o dono de um só burro sabe mais o que ele lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer coisa que nos torne incapaz, restituir-nos-á a liberdade...
— Enfim!
— Ficaremos soltos, na rua, por pouco tempo, arrancando alguma erva que aí deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de erva, que nem sempre é viçosa? Enfraqueceremos; a idade ou a lazeira ir-nos-á matando, até que, para usar esta metáfora humana, — esticaremos a canela. Então teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de três dias, a vizinhança começa a notar que o burro cheira mal; conversação e queixumes. No quarto dia, um vizinho, mais atrevido, corre aos jornais, conta o fato e pede uma reclamação. No quinto dia sai a reclamação impressa. No sexto dia, aparece um agente, verifica a exatidão da notícia; no sétimo, chega uma carroça, puxada por outro burro, e leva o cadáver.
Seguiu-se uma pausa.
 — Tu és lúgubre, disse o burro da esquerda. Não conheces a língua da esperança.
— Pode ser, meu colega; mas a esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza sem par. A nossa raça é essencialmente filosófica. Ao homem que anda sobre dois pés, e provavelmente à águia, que voa alto, cabe a ciência da astronomia. Nós nunca seremos astrônomos. Mas a filosofia é nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito são perfeitas quimeras. Cada século...
O freio cortou a frase ao burro, porque o cocheiro encurtou as rédeas, e travou o carro. Tínhamos chegado ao ponto terminal. Desci e fui mirar os dois interlocutores. Não podia crer que fossem eles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o condutor cuidaram de desatrelar a parelha para levá-la ao outro lado do carro; aproveitei a ocasião e murmurei baixinho, entre os dois burros:
— Houyhnhnms!
Foi um choque elétrico. Ambos deram um estremeção, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de entusiasmo:
— Que homem és tu, que sabes a nossa língua?
Mas o cocheiro, dando-lhes de rijo na lambada, bradou para mim, que lhe não espantasse os animais. Parece que a lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animais; mas como dizia o burro da esquerda, ainda agora: — Onde está a justiça deste mundo?"




Alternativas

(A) No diálogo entre os burros, a citada “liberdade de apodrecer” aparece como a única recompensa que os animais terão após anos de exploração.
(B) A crônica de Machado de Assis não contém aspectos políticos, devendo ser lida e analisada em seu conteúdo literário.
(C) O diálogo entre os burros pode ser entendido como uma imagem da relação ambígua entre as expectativas e as frustrações que a abolição de 1888 causou em grupos abolicionistas e em escravizados.

(D) A crônica, do final do século XIX, fala sobre a chegada de bondes elétricos na cidade do Rio de Janeiro, que substituíram os bondes de tração animal.


QUESTÃO 14

Jornal da República, 27 de agosto de 1979
Jornal
"As vítimas da anistia

Esta semana trará a anistia. Depois de longa expectativa e acidentada votação. Deveria ela constituir o primeiro passo efetivo e real da pacificação nacional, cicatrizando feridas abertas no curso de quinze anos de autocracia. Em lugar disso, será apenas o prólogo da reformulação partidária, tais as deformações que lhe desfiguram a fisionomia.
Uma e outra, o prólogo e a sequência, sofrerão de igual inspiração imperfeita: destinam-se a, do alto e de cima, tutelar a sociedade civil, sem atender às suas reivindicações. Enquanto a anistia, desviando-se da tradição brasileira, deixou ao desabrigo de suas normas uma categoria de dissidentes, alcunhados de terroristas, a reforma partidária não incorporará as forças e os grupos autônomos do país. (...).
Expedientes dessa ordem, particularistas e excludentes, tem o poder de, em pouco tempo, agravar o problema que se queria resolver. Uma larga faixa do povo brasileiro não terá voz nem expressão no quadro partidário a ser implantado. (...)
Se a anistia, em lugar de um grande gesto, foi apenas uma manobra política, deixou consequências que devem ser ressaltadas. Daqui por diante, os anistiados, os que reingressarem no país e os que se integrarem na vida política estarão confrontados à crítica, ao exame e à discussão. (...) Serão políticos como os outros, com a responsabilidade de prestar contas de seus atos e de suas palavras. (...)
Há, por obra da lei da anistia, além das vítimas do regime, as vítimas da anistia. Sobre elas desce a auréola que consagra os mártires. Não se queira, entretanto, que essa legião se transforme em todas as camadas do povo brasileiro, constrangido a votar em partidos que nada significam, senão o reflexo da vontade do poder."


Alternativas
(A) Inviabilizou a criminalização dos agentes da ditadura.
(B) Antecedeu a implantação do pluripartidarismo.
(C) Foi acompanhada de intenso apoio popular.
(D) Baniu da vida política seus líderes anteriores.

QUESTÃO 15


Cortiço do Brás  - fotografia -  Cortiço no Brás - SP
Peter Scheier



Com base na fotografia e em seus conhecimentos, escolha uma alternativa:
Alternativas
(A) A foto reúne um grupo de 21 pessoas, em sua maioria crianças de origem humilde, em um cortiço do bairro do Brás, na cidade de São Paulo.
(B) Os risos dos retratados, a forma orgulhosa como exibem alguns animais de estimação e a proximidade física entre si propõem um olhar acolhedor do fotógrafo em relação à pobreza urbana.
(C) O fotógrafo Scheier viu-se impelido a registrar e denunciar os cortiços no Brasil, tão diversos das boas condições de moradia da classe trabalhadora existentes em seu país de origem.
(D) Os cortiços paulistanos que abrigaram parte dos imigrantes europeus e seus descendentes localizaram-se desde o início do século XX em bairros industriais como Brás, Mooca, Bexiga e Bom Retiro.



QUESTÃO 16

Norma e Conflito

Laura de Mello e Souza. Norma e conflito: aspectos da história de Minas no século XVIII. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999, p. 19-20.


Texto acadêmico

"As Devassas mineiras foram inicialmente efetuadas por deliberação do bispado do Rio de Janeiro (1721-1748), passando para a jurisdição do bispado de Mariana a partir de sua criação. No que toca ao aspecto formal, obedecem ao modelo fixado pelas Constituições do Arcebispado da Bahia, onde estão determinadas, entre outras coisas, as atribuições dos visitadores, a maneira de se publicar o Edital da Visita e de se proceder ao interrogatório, arrolando-se também os delitos.
Segundo rezam as Constituições, os visitadores deveriam sempre ser eclesiásticos, “sacerdotes virtuosos, prudentes e zelosos da honra de Deus e salvação das almas”, podendo ser ou não letrados. Dentre as matérias a zelar, ocupam o primeiro plano as questões referentes à adequação do culto e observância da religião; entretanto, na prática, é sobre o comportamento cotidiano da população no seu aspecto mais geral – e não no restrito apenas às questões religiosas – que incide o olhar vigilante da Igreja: as testemunhas que comparecem à Mesa da denúncia falam muito mais da vida amorosa, da sexualidade, dos costumes de seus semelhantes, do que da sua regularidade no comparecimento às missas e na obediência dos jejuns."


A partir do documento e dos debates que ele suscita, escolha uma alternativa:
Alternativas
(A) A documentação de denúncias e processos revela que a sociedade mineradora, por ser iletrada, não entrava em conflito com dogmas católicos.
(B) A administração e execução das Devassas ocorriam nos principais centros coloniais, indicando um esforço de controle social.
(C) A sociedade e a cultura do século XVIII podem ser estudadas pelos historiadores a partir dos registros produzidos pelas Devassas.
(D) Os preceitos religiosos se constituíam como normas a serem seguidas pelos cristãos, dentro e fora das igrejas.


QUESTÃO 17

O jornal Cabichuí foi publicado no Paraguai entre 1867 e 1868, para acompanhar a situação política enfrentada pelo país e animar as tropas em guerra. Veja abaixo três páginas desse jornal em seu primeiro ano de circulação.

jornal Cabichuí , 16 de maio de 1867



jornal Cabichuí , 10 de julho de 1867




jornal Cabichuí, 16 de dezembro de 1867




Cabichuí, 10 de julho de 1867 - transcrição
Jornal
Leia um trecho de texto publicado no jornal Cabichuí em 10 de julho de 1867 (tradução e transcrição de parte do documento 2):

“A Guerra da Tríplice Aliança Contra o Paraguai
O mundo não havia presenciado, nesses tempos tão avançados em termos de civilização, um escândalo mais cínico contra o direito das gentes do que esse trazido pela Tríplice Aliança com seu insolente atentado contra a independência do Paraguai. (...) Se o Paraguai não tivesse resistido com heroísmo ao ímpeto dessas hordas conquistadoras (...) [elas já] teriam consumado suas ações sobre a mais rica, pacífica e laboriosa dentre as repúblicas da América. A desaparição de uma república pelo poder absorvente da coroa de Bragança seria apenas o primeiro passo daquilo que sua força e diplomacia preparam-se para dirigir (...) primeiro contra seus aliados e depois contra o resto da América. O Paraguai é um reduto avançado da América da qual o inimigo quer se apoderar, um ponto estratégico necessário (...) A América não deveria demonstrar essa glacial indiferença perante o que está a ocorrer às margens dos [rios] Paraná e Paraguai (...)” [Cabichuí, 10 de julho de 1867]


Com base nos documentos apresentados e no contexto em que foram produzidos, escolha uma alternativa:
Alternativas
(A) O jornal Cabichuí era uma publicação do exército paraguaio e sua ilustração de capa compara as tropas desse país a um perigoso enxame de vespas que ataca um homem animalizado.
(B) O Cabichuí descreve a Guerra do Paraguai como uma investida antirrepublicana da Tríplice Aliança; parte da historiografia brasileira sobre o conflito expressou visão semelhante.
(C) Os documentos 2, 3 e 4 reforçam um mesmo argumento: o de que a pátria paraguaia estava defendendo todo o restante da América do Sul que, no entanto, não vinha em seu socorro.
(D) A Guerra do Paraguai forçou aquele país a criar sua imprensa como forma de comunicação entre as tropas e de informar a população que, no entanto, era majoritariamente analfabeta.



QUESTÃO 18


Quilombo: vidas, problemas e aspirações do negro, julho de 1949, p. 1
Jornal

Quilombo: vidas, problemas e aspirações do negro, julho de 1949, p. 2-3
Jornal


Observe o documento e escolha uma alternativa;
Alternativas
(A) Abdias do Nascimento e Maria de Lourdes Vale Nascimento eram irmãos e, por serem os responsáveis pela editoração, diagramação e administração do jornal, não escreviam colunas ou editoriais.
(B) A ativista e atriz Ruth de Souza, participante do Teatro Experimental do Negro (TEN), é retratada na capa do jornal Quilombo, que em cada edição exaltava os talentos e a beleza de uma mulher negra.
(C) Solano Trindade foi poeta e entusiasta do folclore brasileiro e do teatro, tendo fundado com Maria Margarida e Edison Carneiro o Teatro Popular Brasileiro, que tinha no elenco empregadas domésticas, operários e estudantes.
(D) O jornal Quilombo é um expoente da imprensa negra, conjunto de publicações diversas de grupos de associativismo negro, que tem a questão racial como central nas experiências cotidianas.

QUESTÃO 19




Camila, Camila

Letra de música

"Depois da última noite de festa
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer
As coisas aconteciam com alguma explicação
Com alguma explicação
Depois da última noite de chuva
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer
Às vezes peço a ele que vá embora
Que vá embora oh
Camila, Camila
Eu que tenho medo até de suas mãos
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega
E eu que tenho medo até do seu olhar
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega
A lembrança do silêncio daquelas tardes
Daquelas tardes
A vergonha do espelho naquelas marcas
Naquelas marcas
Havia algo de insano naqueles olhos,
Olhos insanos
Os olhos que passavam o dia a me vigiar, a me vigiar oh
Camila, Camila, Camila
Camila, Camila, Camila
E eu que tinha apenas 17 anos
Baixava a minha cabeça pra tudo
Era assim que as coisas aconteciam
Era assim que eu via tudo acontecer
E eu que tinha apenas 17 anos
Baixava minha cabeça pra tudo
Era assim que as coisas aconteciam
Era assim que eu via tudo acontecer
Camila, Camila, Camila
Camila, Camila, Camila"


Sobre o tema que a canção trata escolha uma das alternativas:
Alternativas
(A) O Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicou que no Brasil, em 2017, a maior parte dos 135 estupros e 12 assassinatos de mulheres por dia ocorreu na esfera doméstica e/ou por familiares/conhecidos.
(B) Iniciativas como a Lei Maria da Penha de 2006 e o estabelecimento do crime de feminicídio acabam por reforçar a desigualdade jurídica entre homens e mulheres.
(C) A letra descreve, de forma velada, o relacionamento abusivo e violento a que a personagem Camila está submetida: medo das mãos, marcas no corpo, olhos insanos que a vigiam.
(D) A Constituição de 1988 estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres na vida pública e privada, inclusive na relação conjugal, o que eliminou o “crime de legítima defesa da honra”.

QUESTÃO 20



Correio da Manhã, 1 de outubro de 1937


Jornal









Sobre o tema e seus desdobramentos é possível afirmar:
Alternativas

(A) A notícia traz um texto baseado num documento forjado pelo então capitão Olímpio Mourão Filho - chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira (AIB) - que circulou nos quartéis antes de ser apresentado à população como um plano de revolução comunista no país.
(B) Em 1964, o autor do Plano Cohen, o então general Olímpio Mourão Filho, foi um dos articuladores que deu início ao movimento das tropas militares que depuseram o presidente João Goulart, mais uma vez sob a bandeira de uma luta contra o comunismo.
(C) A divulgação e repercussão do Plano Cohen vão ao encontro da proposta varguista de uso das mídias como veículo de construção de uma opinião pública favorável a seu governo, colocando seus opositores como inimigos também da Nação.

(D) Denunciado em 1945 como autor do documento, o então general Olímpio Mourão Filho esclareceu que o documento fora produzido para uso exclusivo da AIB mas, mesmo assim, foi punido e passou a exercer o cargo de gabinete de presidente da Comissão Técnica de Rádio.


QUESTÃO 21



História pra ninar gente grande

Letra de samba enredo

"Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero o país que não tá no retrato
Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de Cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Mangueira tira a poeira dos porões
Ô abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões
São verde-e-rosa as multidões"





Sobre o documento, é correto afirmar que:
Alternativas
(A) O samba-enredo aborda o processo de ocultamento da agência das minorias nas narrativas dos eventos históricos.
(B) Os compositores evocam a invisibilização e silenciamento das mulheres negras na sociedade brasileira.
(C) O “herói emoldurado” é referência somente àqueles que lutaram nas batalhas históricas do Brasil.
(D) Trata-se de um samba-enredo que tem como tema central as lutas que não aparecem na chamada “história oficial”.



FASE 3

QUESTÃO 23




Diário de um detento
Letra de música
“São Paulo, dia primeiro outubro
De mil novecentos e noventa e dois
Oito horas da manhã

Aqui estou, mais um dia
Sob o olhar sanguinário do vigia
Você não sabe como é caminhar
Com a cabeça na mira de uma HK
Metralhadora alemã ou de Israel
Estraçalha ladrão que nem papel

Na muralha, em pé, mais um cidadão José
Servindo o Estado, um PM bom
Passa fome, metido a Charles Bronson
Ele sabe o que eu desejo
Sabe o que eu penso
O dia tá chuvoso, o clima tá tenso
Vários tentaram fugir, eu também quero
Mas de um a cem, a minha chance é zero

Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou a apelação?
Mando um recado lá pro meu irmão:
Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão
Ele ainda tá com aquela mina
Pode crê, moleque é gente fina

Tirei um dia a menos, ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro e vejo o dia passar
Mato o tempo pra ele não me matar

Homem é homem, mulher é mulher
Estuprador é diferente, né?
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés
E sangra até morrer na rua 10

Cada detento, uma mãe, uma crença
Cada crime, uma sentença
Cada sentença, um motivo, uma história
De lágrima, sangue, vidas e glórias
Abandono, miséria, ódio, sofrimento
Desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química
Pronto: eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio
Ao redor do campo, em todos os cantos
Mas eu conheço o sistema, meu irmão
Aqui não tem santo
Ratatatá, preciso evitar
Que um safado faça minha mãe chorar
Minha palavra de honra me protege
Pra viver no país das calças bege

Tic, tac, ainda é nove e quarenta
O relógio da cadeia anda em câmera lenta

(groove)

MANO BROWN
Ratatatá, mais um metrô vai passar
Com gente de bem, apressada, católica
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita
Com raiva por dentro, a caminho do centro
Olhando pra cá, curiosos, é lógico
Não, não é, não, não é o zoológico
Minha vida não tem tanto valor
Quanto seu celular, seu computador

Hoje, tá difícil, não saiu o sol
Hoje não tem visita, não tem futebol
Alguns companheiros têm a mente mais fraca
Não suportam o tédio, arruma quiaca

Graças a Deus e à Virgem Maria
Faltam só um ano, três meses e uns dias
Tem uma cela lá em cima fechada
Desde terça-feira ninguém abre pra nada
Só o cheiro de morte e Pinho Sol
Um preso se enforcou com o lençol
Qual que foi? Quem sabe não conta
Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta
Nada deixa um homem mais doente
Que o abandono dos parentes

Aí, moleque, me diz, então: cê quer o quê?
A vaga tá lá esperando você
Pega todos seus artigo importado
Seu currículo no crime e limpa o rabo
A vida bandida é sem futuro
Sua cara fica branca desse lado do muro
Já ouviu falar de Lúcifer?
Que veio do Inferno com moral?
Um dia no Carandiru, não ele é só mais um
Comendo rango azedo com pneumonia

Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril
Parelheiros, Mogi, Jardim Brasil
Bela Vista, Jardim Angela, Heliópolis
Itapevi, Paraisópolis
Ladrão sangue bom tem moral na quebrada
Mas pro Estado é só um número, mais nada
Nove pavilhões, sete mil homens
Que custam trezentos reais por mês cada

Na última visita, o neguinho veio aí
Trouxe umas fruta, Marlboro, Free
Ligou que um pilantra lá da área voltou
Com Kadett vermelho, placa de Salvador
Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa
Com uma nove milímetro embaixo da blusa
Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?
Lembra desse cururu que tentou me matar?

ICE BLUE
Aquele puta ganso, pilantra, corno manso
Ficava muito doido e deixava a mina só
A mina era virgem e ainda era menor
Agora faz chupeta em troca de pó!

MANO BROWN
Esses papo me incomoda
Se eu tô na rua é foda

ICE BLUE
É, o mundo roda, ele pode vir pra cá

MANO BROWN
Não, já, já meu processo tá aí
Eu quero mudar, eu quero sair
Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum
E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um

Amanheceu com sol, dois de outubro
Tudo funcionando, limpeza, jumbo
De madrugada eu senti um calafrio
Não era do vento, não era do frio
Acerto de conta tem quase todo dia
Ia ter outro logo mais, hã, eu sabia
Lealdade é o que todo preso tenta
Conseguir a paz de forma violenta
Se um salafrário sacanear alguém
Leva ponto na cara igual Frankenstein

Fumaça na janela, tem fogo na cela
Fudeu, foi além, se pã, tem refém
Na maioria se deixou envolver
Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder
Dois ladrões considerados passaram a discutir
Mas não imaginavam o que estaria por vir
Traficantes, homicidas, estelionatários
Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria
Avise o IML, chegou o grande dia
Depende do sim ou não de um só homem
Que prefere ser neutro pelo telefone
Ratatatá, caviar e champanhe
Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe
Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo
Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio

O ser humano é descartável no Brasil
Como modess usado ou bombril
Cadeia guarda o que o sistema não quis
Esconde o que a novela não diz

Ratatatá, sangue jorra como água
Do ouvido, da boca e nariz
O Senhor é meu pastor, perdoe o que seu filho fez
Morreu de bruços no Salmo 23
Sem padre, sem repórter
Sem arma, sem socorro
Vai pegar HIV na boca do cachorro
Cadáveres no poço, no pátio interno
Adolf Hitler sorri no inferno
O Robocop do governo é frio, não sente pena
Só ódio, e ri como a hiena

Ratatatá, Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia três de outubro, diário de um detento"




CARANDIRU I ( FOTOGRAFIA)




“Relembre em imagens o Massacre do Carandiru”. O Globo, 08/04/2013. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/brasil/relembre-em-imagens-massacre-do-carandiru-8056011



CARANDIRU II (FOTOGRAFIA)




“Massacre do Caradiru”. Foto Cotidiano. Folha de São Paulo, 05/04/2013. Fotografia de: Niels Andreas, 5 out. 1992 – folhapress. Disponível em: https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/10446-massacre-do-carandiru#foto-55450




Sobre os documentos e o tema que abordam, escolha a alternativa mais adequada
Alternativas
(A) Os documentos levam a refletir sobre uma lógica de violência que justifica a brutalidade da ação policial pela ideia de desumanização dos indivíduos considerados criminosos.
(B) As fotografias apresentam cenas das vítimas, que somaram cerca 110 feridos e 111 mortos; segundo relatos, muitos mortos foram encontrados com as mãos na cabeça ou algemados, o que pode indicar que haviam se rendido.
(C) A repercussão internacional do Massacre do Carandiru levou o TJSP a condenar e encarcerar, em veredictos inéditos, o ex-governador Fleury, o comandante da operação, coronel Ubiratan, e 74 policiais militares.
(D) Em 1993, duas chacinas na cidade do Rio de Janeiro trouxeram novamente o Massacre do Carandiru à memória por sua semelhança no que se refere à violência policial em ações de extermínio de grupos considerados “descartáveis”.



QUESTÃO 24


Observe as capas e contracapas de disco e escolha uma alternativa.


Chico Buarque canta Calabar


Capa e Contracapa "Calabar" I
Capa de disco


CAPA



CONTRACAPA




CAPA E CONTRACAPA - CALABAR II



Chico Buarque, Chico Canta: Calabar - O elogio da traição, 1973.







CAPA E CONTRACAPA - CALABAR III






Alternativas
(A) As três capas e contracapas são do LP Calabar, de 1973, sendo a primeira a original, a segunda feita imediatamente após a censura e a terceira criada para a segunda edição do disco, já com uma capa remodelada.
(B) As capas e contracapas diferentes para um mesmo disco foram opção do compositor, que fez o mesmo em seu LP Francisco, de 1987.
(C) Grande parte da trilha sonora da peça teatral “Calabar: o elogio da traição” foi censurada, apresentada apenas como instrumental no LP, e algumas das faixas tiveram palavras cortadas, como “sífilis” em “Fado tropical”.

(D) Na peça, Chico Buarque e Ruy Guerra dão voz a personagens comumente marginalizadas pela história, como Bárbara, esposa de Calabar, e Ana de Amsterdã, que simbolizava as prostitutas trazidas pelos holandeses.



QUESTÃO 25

S. John del Rey Mining Company

Fotografia


Legenda:
S. John del Rey Mining Company
Morro Velho Prov de Minas
BRAZIL

Origem
Augusto Riedel. Viagem de S.S.A.A. Reaes Duque de Saxe e seu augusto irmão D. Luís Philippe ao interior do Brazil no anno 1868. Disponível em: https://www.wdl.org/pt/item/2000/



O documento, uma fotografia, retrata uma mina localizada em Minas Gerais. A partir dele e de sua pesquisa, é possível afirmar que:
Alternativas
(A) Apresenta um panorama do Morro Velho, localizado em Minas Gerais, e utiliza um homem, no primeiro plano, para marcar as escalas do empreendimento da mineração e das construções vizinhas.
(B) Ao longo do século XIX a atividade mineradora no Brasil passou por um crescimento que envolveu a instalação de empresas privadas estrangeiras, como a identificada na fotografia.
(C) Os trabalhadores ingleses que atuavam na região do Morro Velho contavam com estatuto próprio a despeito da lei brasileira, o que provocou uma distorção na relação entre católicos e protestantes.
(D) As estruturas registradas na fotografia evidenciam o aspecto rudimentar da atividade mineradora refletida na baixa produtividade e pouco interesse por parte do Estado brasileiro.

 QUESTÃO 26

Leia os dois documentos:
O primeiro é um trecho de filme com as reflexões da filósofa Hannah Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann: um criminoso nazista responsável pela deportação em massa de milhares de judeus para campos de extermínio, capturado na Argentina em 1960, julgado e condenado em Israel em 1961. O segundo deles contém as instruções para o juramento de ingresso no Integralismo, um movimento que existiu no Brasil dos anos 1930.



Hannah Arendt


Resultado de imagem para Hannah Arendt








Tradução e Transcrição de trecho de filme

"Hannah Arendt: Talvez, só por hoje, espero que me permitam fumar imediatamente. Quando a New Yorker me enviou para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, eu imaginei que o tribunal teria apenas um propósito: cumprir as exigências da justiça. Minha tarefa não foi fácil porque o tribunal que julgava Eichmann via-se diante de um crime que inexistia nos códigos penais. E o réu era diferente de todos aqueles que antecederam o julgamento de Nuremberg. Mesmo assim, cabia ao tribunal definir Eichmann como homem sendo julgado por seus atos. Não se julgava um sistema. Não se julgava a História, nenhum 'ismo'. Nem mesmo o 'antissemitismo'. Mas somente a pessoa. O problema com um criminoso nazista como Eichmann é que ele insistia em renunciar a qualquer traço pessoal. Como se não tivesse sobrado ninguém para ser punido ou perdoado. Repetidas vezes ele protestava, rebatendo as acusações da promotoria, dizendo que não tinha feito nada por iniciativa própria. Que ele não tivera quaisquer intenções, boas ou más. Que ele apenas obedeceu ordens. Esta desculpa típica dos nazistas torna claro que o maior mal do mundo é o mal perpetrado por ninguém. Até mesmo os males cometidos por homens sem qualquer motivo, sem convicção, sem razão maligna ou intenções demoníacas. Mas seres humanos que se recusam a ser pessoas. E é este fenômeno que eu chamei de 'a banalidade do mal'.

Homem da plateia: Senhora Arendt, a senhora está evitando a parte mais importante da controvérsia. Disse que menos judeus teriam morrido se seus líderes não tivessem cooperado.

Hannah Arendt: Essa questão surgiu durante o julgamento. Eu a relatei e tive que esclarecer o papel desses líderes judeus que participaram diretamente nas atividades de Eichmann.

Homem na plateia: A Senhora culpa o povo judeu por sua própria destruição.

Hannah Arendt: Eu nunca culpei o povo judeu! Resistência era impossível. Mas talvez haja alguma coisa entre a resistência e a cooperação. E é só nesse sentido que eu digo que talvez alguns dos líderes judeus poderiam ter agido de forma diferente. É extremamente importante fazer-se estas perguntas. Porque o papel dos líderes judeus fornece exemplo mais chocante do ponto a que chegou o colapso moral causado pelos nazistas na respeitada sociedade europeia. E não só na Alemanha, mas em quase todos os países. Não apenas dentre os que perseguiam, mas também entre as vítimas.

Mulher na plateia: A perseguição visava aos judeus. Por que descreve os crimes de Eichmann como crimes contra a humanidade?

Hannah Arendt: Porque os judeus são seres humanos. De saída, os nazistas o negavam como tal. Um crime contra eles é, por definição, um crime contra a humanidade. Como todos sabem, eu sou judia. E eu já fui acusada de não me aceitar como judia, de defender os nazistas e desprezar meu próprio povo. Isso não é um argumento. É um assassinato de caráter! Nada do que escrevi foi em defesa de Eichmann. Tentei foi conciliar a chocante mediocridade desse homem com seus atos abomináveis. Tentar entender não é o mesmo que perdoar. Minha responsabilidade é entender. É a responsabilidade de qualquer um que ouse escrever sobre essa questão. Desde Sócrates e Platão, que geralmente se referiam ao pensar como o diálogo silencioso travado consigo mesmo. Ao recusar-se a ser uma pessoa, Eichmann abdicou totalmente da característica que mais define o homem como tal: a de ser capaz de pensar. Consequentemente, ele se tornou incapaz de fazer julgamentos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos cruéis em uma escala monumental jamais vista. É verdade. Tratei dessas questões de forma filosófica. A manifestação do ato de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal, o belo do feio. E eu tenho esperança de que o pensar dê força às pessoas para evitar catástrofes naqueles momentos raros, quando chega a hora da verdade. Obrigada."

Sobre este documento
Título
Hannah Arendt

Tipo de documento
Tradução e Transcrição de trecho de filme

Origem
Título original: Hannah Arendt
Data de lançamento 5 de julho de 2013 (1h 53min)
Direção: Margarethe von Trotta
Elenco: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer
Gêneros: Biografia, Drama
Nacionalidades: Alemanha, França
Produção: Heimatfilm Gmbh
Roteiro: Margarethe Von Trotta
Distribuição: 254
Idioma: Alemão e Inglês

Disponivel em: https://www.youtube.com/watch?v=LYGVAFKpvXM
Trecho transcrito:  1:35:19 a 1:42:44. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=06jufTlnFbU

Créditos
Produção: Heimatfilm Gmbh
Roteiro: Margarethe Von Trotta
Argumento: Hannah Arendt





Juramento

Panfleto

"Art. 146 – O ato do juramento, que terá lugar na sala das sessões, em frente ao retrato do Chefe Nacional, e na presença de, pelo menos, dez Integralistas, realiza-se da seguinte forma: o Chefe Provincial, Municipal ou Distrital, ou a autoridade que o represente, mandará o novo Integralista erguer o braço direito verticalmente e pronunciar as seguintes palavras: - 'Juro por Deus e pela minha honra trabalhar pela Ação Integralista Brasileira, executando, sem discutir, as ordens do Chefe Nacional e dos meus superiores' – A autoridade, então, dirá –'Integralistas! Mais um brasileiro entrou para as fileiras dos ‘Camisas-Verdes'.' 'Em nome do Chefe Nacional eu o recebo e convido os presentes a saudá-lo, segundo o nosso rito. (Elevando a voz): Ao nosso novo companheiro, - Anauê! Os presentes responderão: - 'Anauê'.'

§ 1º - O juramento acima só poderá ser prestado na sede em que se inscrever o novo Integralista, salvo caso excepcional e com autorização da Chefia Nacional.
§ 2º - Os Integralistas que ingressarem nas organizações atléticas ou esportivas, ainda estão sujeitos ao juramento da S. N. E.
Art. 147 – Estão dispensados do Juramento Integralista os militares que ingressarem no Integralismo (Res. nº 100, de 25-6-1935). O Chefe Nacional entende que a nacionalidade estaria falida no dia em que um militar precisasse repetir um juramento que já fez de servir à Pátria e o Integralismo é considerado pelo Chefe como a única doutrina salvadora da Nação."




Sobre este documento
Título
Juramento

Tipo de documento
Panfleto

Origem
Panfleto “Protocolos e Rituais da Ação Integralista Brasileira”. 1937. PP. 41.





Sobre o tema e a partir dos documentos, escolha uma alternativa.


Alternativas

(A) Assim como Adolf Eichmann, muitos integralistas foram julgados em virtude de sua participação na milícia integralista.


(B) Gestos e palavras de ordem, massificação, renúncia à liberdade e obediência irrestrita ao líder político estão presentes em projetos fascistas.


(C) Os dois documentos tratam de movimentos que, embora referentes a contextos diferentes, podem ser caracterizados como totalitários.


(D) Para Arendt, a banalidade do mal implica a renúncia voluntária à própria liberdade, ao pensamento crítico e à capacidade de discernimento.




Conteúdo adicional
Eichmann em Jerusalém
Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30
Hannah Arendt [trecho]
Hannah Arendt [completo]

QUESTÃO 27

OBSERVE OS DOCUMENTOS

A casa das minas - fotografia




Origem

(Autor desconhecido). Casa das Minas. Vodunsis com tobossis após a última feitoria de gonjaís de 1914. Museu Afro-Digital, Universidade Federal do Maranhão.




Terreiro Casa das Minas

Documento legal

"Ilmo Sr. Presidente do IPHAN
Ilmos Srs. Conselheiros

Foi com muita honra que recebi do Sr. Presidente do IPHAN, Dr. Carlos Henrique Heck, através da Professora Anna Maria Serpa Barroso, a tarefa de examinar e opinar sobre este processo. Esta é a minha primeira missão como relator no âmbito deste Conselho e sendo assim, foi grande minha apreensão ao ser incumbido desta irrecusável e nobre tarefa.

É portanto, com emoção que o faço, por se tratar da proposta de tombamento de uma casa de cultura afro-maranhense, denominada Casa das Minas, ou Querebentam de Zomadônu, localizada em São Luís, cidade onde me radiquei desde a década de 70 e onde me dedico desde então exclusivamente às atividades de um programa de preservação do seu magnífico centro histórico. (...)

De fato, a Casa das Minas, é considerada como a mais antiga Casa de religião afro-brasileira do Maranhão, por haver sido fundada em meados do século XIX, no mesmo momento da chegada de negros escravizados e originários do sul de Benin, antigo Daomé, com a finalidade de cultuar as divindades da família real de Abomey através da Mãe Maria Jesuína. Foi, por todos os especialistas que a estudaram até hoje, classificada como a única no nosso país, que cultua divindades originárias do antigo Reino do Daomé e que tem como principal manifestação religiosa as divindades denominadas de Voduns, que são invocadas através de cânticos e danças e cuja maioria são vinculados à família real do Daomé (...)

Outro aspecto peculiar desta casa é o fato de se constituir numa gerontocracia feminina, onde o poder vai sendo transferido em cadeia sucessória, de forma respeitosa e consensual de uma liderança para outra, segundo os dotes de sabedoria, antiguidade no culto e equilíbrio demonstrados ao longo da convivência entre elas.

Mas o tombamento que é solicitado neste processo é o da Casa em si, a edificação propriamente dita, como sede da instituição, e devemos conduzi-lo através de procedimentos utilizados normalmente para a proteção de bens imóveis. Cabe então analisar um tanto mais detidamente este aspecto da questão. Neste ponto gostaria de emitir opinião favorável às ponderações contidas no parecer da Procuradoria Jurídica integrante do presente processo, segundo o qual, o acervo de bens móveis não deve ser incluído neste tombamento, em virtude da natureza efêmera e facilmente perecível de numerosas das peças arroladas no inventário fotográfico, que por sua natureza são impróprios e até incompatíveis com os preceitos do tombamento, cuja conservação e preservação constituem a essência deste ato.

A Casa é ritual e hierarquicamente dividida e cada setor é habitado pelos parentes dos principais Voduns. Assim temos as três casas principais Zomadônu, Sepazin e Dadarrô e as Famílias de Quevioçô de Davice e do Dambirá, onde outros voduns têm também um cômodo ou quarto, onde residem de fato os seus parentes. Assim é que, se a varanda de dança ou “guma” tem piso de chão ou terra batida é porque ali dançam os voduns. Ou seja, o piso é assim porque os voduns determinam e o contato com a terra é um fundamento vital.

Em última análise, o Querebentan de Zomadonu sobreviveu até os nossos dias porque os rituais foram preservados, e os rituais foram preservados porque eles possuem seu lócus de celebração que é a Casa. A Casa é o corpo, e como tal é “orgânica” em seus materiais e formas. (...)

Conforme vimos nos autos deste processo, transparece todo o tempo um esforço secular de transmissão de conhecimentos originais de geração para geração. Também o corpo da Casa vem sendo mantido com as conhecidas dificuldades pelas sucessivas Mães que a governaram e que agora apelam para o reconhecimento nacional, porque compreendem que o tombamento não é somente um ato jurídico e burocrático, mas uma estratégia de agregar valor, de tornar mais respeitado, de distinguir, de divulgar, de fortalecer argumentos de defesa, solicitações de ajuda e, portanto, um caminho para consolidar as perspectivas de continuidade para o futuro. (...)

Sendo assim e corroborando a maior parte das recomendações e pareceres diversos exarados nas várias instâncias que percorreram os autos deste processo, declaro-me favorável ao tombamento do imóvel, nas condições sugeridas pela Procuradoria Jurídica do IPHAN, ou seja, não incluindo no tombamento, os bens móveis.

Este é o nosso parecer.

São Luís do Maranhão, em 17 de agosto de 2001
Luiz Phelipe de Carvalho Castro Andrès

Conselheiro do Conselho Consultivo do IPHAN"


Sobre este documento
Título
Terreiro Casa das Minas
Tipo de documento
Documento legal
Glossário
Gerontocracia: Grupo social em que a liderança é exercida por anciãos.
Origem
Processo nº 1464-T-00 - “Terreiro Casa das Minas, situado na Rua de São Pantaleão 857, no Município de São Luís, Estado do Maranhão”
Créditos
IPHAN




A partir dos documentos escolha uma alternativa:
Alternativas


(A) As bonecas nas mãos das mulheres fazem referência às tobossis, entidades infantis cultuadas na Casa das Minas, pertencentes à nobreza africana do antigo reino do Daomé, atual Benin.
(B) O grande uso de palavras originárias das línguas ewe-fon na Casa das Minas chama atenção para a presença e persistência das heranças culturais africanas nesse grupo social organizado no século XIX.
(C) As bonecas, os tambores e as vestimentas, bens móveis de valor etnográfico incontestável, foram arrolados no processo de tombamento promovido pelo IPHAN como componentes do patrimônio imaterial da Casa das Minas.

(D) A fotografia retrata um grupo, em sua maioria mulheres, com trajes rituais e bonecas nas mãos, com tambores à frente. São adeptas da Casa das Minas, terreiro tombado pelo IPHAN, situado em São Luís – Maranhão.





QUESTÃO 28
0000000000

ANGOLA JANGA I - ROMANCE GRÁFICO


Origem

Marcelo D' Salete. Angola Janga: uma história de Palmares. São Paulo: Veneta, 2017.




ANGOLA JANGA II - ROMANCE GRÁFICO

ANGOLA JANGA III - ROMANCE GRÁFICO



ANGOLA JANGA IV - ROMANCE GRÁFICO



ANGOLA JANGA V - ROMANCE GRÁFICO



Levando em conta a observação das imagens e seus conhecimentos sobre a história de Palmares, pode-se afirmar que:

Alternativas

(A) Usando termos em quimbundo, uma língua banto, o título do romance gráfico destaca a importância de elementos da África Central para a compreensão de Palmares.
(B) O autor do romance gráfico representa, nessas páginas iniciais, as principais lideranças que Palmares - que anos mais tarde assumiriam os nomes de Zumbi e Ganga-Zumba.
(C) A composição em preto e branco reforça traços da fisionomia dos personagens, destacando escarificações e também as marcas deixadas pela violência dos processos da escravidão.

(D) A instabilidade política e econômica causada pela presença holandesa em Pernambuco, entre 1630 e 1654, propiciou um aumento das fugas de escravos para Palmares.



QUESTÃO 29


Leia a seguir alguns excertos do processo de exame censório para a peça “Pastel de Carne Humana ou Comi o meu amigo”. Rio de Janeiro, 1852.




Requerimento ao presidente do Conservatório Dramático Brasileiro solicitando exame censório, para a peça “Pastel de Carne Humana ou Comi o meu amigo", 1852
Relatório
"a - Requerimento (de Joaquim Candido da Silva Nazareth)
Illmo. Snr
O Incluso acompanha a Comedia em dous actos com titulo Pastel de Carne Umana, ou Comi o meu Amigo, Original Francês traduzido pelo Illmo. Sr. José Manoel de Santa Anna, afim de ser vista pelo Illmo Snr Membro do Conservatorio Bras. O qual podendo levar em Scena a Sociedade Drammatica Particular Amazonas q lhe tenho a honra de apresentar a V. Sª. a dita Comedia.

Sociedade D. Particular Amazonas, 5 de Fevereiro 1854
Secretário Joaquim Candido da Silva Nazareth

b - Designação (de Joze Rufino Rodrigues de Vasconcelos)
O Senhor Conselheiro Presidente do Conservatorio Drammatico Brasileiro, em virtude das atribuições que lhe confere o Imperial Decreto de 19 de Julho de 1845 designa o Illmo. Sr. Dr. Carlos Luiz de Saules para interpor seu juiso sobre o drama intitulado O Pastel de carne humana ou comi o meu amigo que se lhe remete com esta, onde será exarado o seu parecer, tendo em vista as disposições seguintes –
'Não devem aparecer na scena assumptos, nem mesmo expressões menos conformes com o decoro, os costumes e as atenções que em todas as ocasiões se devem guardar, maiormente naquelas em que a Imperial Familia honrar com a Sua presença o espectaculo.' (aviso de 10 de Novembro de 1843)
'O julgamento do Conservatorio he obrigatório quando as obras censuradas pecarem contra a veneração á nossa Santa Religião, contra o respeito devido aos Poderes Politicos da Nação e ás Authoridades constituídas, e contra a guarda da moral e decência publica. Nos casos porem em que as obras peccarem contra a castidade da língua, e aquela parte que he relativa á Orthoepia, pode-se notar os defeitos, mas não negar a licença.' (Resol. Imperial de 28 de Agosto de 1845)
Secretaria do Conservatorio Drammatico Brasileiro, 5 de Fevrº de 1852
O 1º Secretario

 c - Parecer (de Carlos Luiz de Saules)
Lemos a comedia = O pastel de carne humana ou Comi o meu amigo = e por não julgarmos conveniente que se habitue o povo a ouvir falar em comer carne humana como se se tratasse de gallinhas, patos (inc), por julgamos extremamente imoral e repugnante ouvir da boca de um individuo que de boa fé julgava ter comido carne do amigo, que essa carne lhe parecia mui saborosa, e por outros motivos (inc) (...) somos de opinião que se não dê a licença pedida (inc) (...)


d - Despacho (de Diogo Soares da Silva de Bivar)
Usando da atribuição que me confere a Lei nego por parte do Conservatorio D. B. a licença pedida para a representação da Comedia O pastel de carne humana, a qual não poderá subir á C(ena) em nenhum dos theatros desta Corte.
Rio de Janeiro, em 21 de Fevereiro de 1852
Requerimento ao presidente do Conservatório Dramático Brasileiro solicitando exame censório, para a peça 'Pastel de Carne Humana ou Comi o meu amigo'. Rio de Janeiro, 1852. (Coleção Conservatório Dramático Brasileiro (CDB) - Biblioteca Nacional)"


Sobre este documento
Título
Requerimento ao presidente do Conservatório Dramático Brasileiro solicitando exame censório, para a peça “Pastel de Carne Humana ou Comi o meu amigo", 1852

Tipo de documento
Relatório

Origem
Requerimento ao presidente do Conservatório Dramático Brasileiro solicitando exame censório, para a peça “Pastel de Carne Humana ou Comi o meu amigo”. Rio de Janeiro, 1852. (Coleção Conservatório Dramático Brasileiro (CDB) - Biblioteca Nacional)

Créditos
Coleção Conservatório Dramático Brasileiro

Palavras-chave
CENSURA






Sobre o documento apresentado, podemos afirmar que:

Alternativas

(A) Apresenta diferentes etapas da tramitação do exame censório aberto para que a peça “O Pastel de Carne Humana” pudesse ser encenada no ano de 1852 no Rio de Janeiro.
(B) Carlos Luiz de Saules autorizou a licença solicitada por Joaquim Candido da Silva Nazareth, secretário da Sociedade Dramática Particular Amazonas, com pequenas alterações.
(C) O Conservatório Dramático Brasileiro reforçava os laços entre o Império e a intelectualidade e servia como órgão de controle para garantir a moral e o respeito à Igreja.
(D) O parecerista Carlos Luiz de Saules considerou a peça afrontosa no que diz respeito à guarda da moral e da decência públicas.



QUESTÃO 30

Incêndio do Museu Nacional não é tragédia, mas fruto de um projeto de país
Blog


"O incêndio que consumiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, não pode ser encarado como uma tragédia. Um foco de fogo que destruísse uma obra, mas fosse rapidamente debelado seria uma tragédia. A queima de uma instituição com 200 anos e um acervo de 20 milhões de itens, que não contava com estrutura adequada de prevenção a incêndios, não é um acidente, mas um empreendimento. Um projeto coletivo, pacientemente implementado ao longo do tempo por um Estado e uma sociedade que condenaram seu patrimônio histórico, natural, científico e cultural à inanição.

O Brasil talvez acredite que uma instituição como essa diga respeito ao passado e não ao entendimento do presente e, portanto, à construção do futuro. Sua queima não é, consequentemente, apenas fruto das crises econômica e política que minguaram os repasses federais, mas faz parte de um sistema que atua abertamente para que o país continue ignorante sobre si mesmo e suas possibilidades.

Esse projeto coletivo não enxerga barreiras ideológicas e matizes políticos. Não começou neste governo (apesar dele ter se esforçado bastante nesse sentido) e nem irá terminar com ele (a PEC do Teto dos Gastos limitou o investimento em áreas como cultura por 20 anos). Pois não se trata apenas de recursos financeiros e vontade. Um fogo que consome um museu inteiro é paradigmático da ausência de um projeto nacional que veja esse patrimônio como subsídio fundamental para a construção de um país melhor. E que, portanto, precisaria ser protegido a qualquer custo.

Se assim fosse, haveria recursos para monitorar, conservar e estudar nosso patrimônio da mesma forma que existe para garantir o funcionamento dos mais diversos palácios que hospedam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário pelo país. Até porque representantes políticos vêm e vão, mas nossa história fica. O povo seria o primeiro a ocupar os palácios para pedir recursos a museus. 
Mas parte da população não se sente proprietária e corresponsável pela coisa pública pelos mais diferentes motivos. Empurrada para a franja da cidadania, uma parcela aprendeu que o patrimônio nacional não lhe diz respeito – uma falsa conclusão incutida em suas cabeças cuja reversão depende de um trabalho longo e demorado. Em outro extremo, há quem conheça bem os museus na Europa e nos Estados Unidos, mas conta nos dedos de uma mão o número de instituições brasileiras que já visitou por falta de interesse ou preconceito. Há também os que celebram os estádios superfaturados, mas não perdem o sono se uma fração dos desvios teria trazido alívio à cultura.

Desta vez, esse projeto coletivo destruiu o museu mais antigo do país. Mas, em maio de 2010, atingiu o maior e mais importante acervo de espécies de cobras tropicais do mundo, com mais de um século de existência, quando o Instituto Butantan, em São Paulo, pegou fogo. A coleção contava com mais de 80 mil espécimes, além de aranhas e outros animais, muitos dos quais nem haviam sido registrados ainda. Um patrimônio que poderia trazer respostas à biologia e à medicina.

Quando a notícia de 2010 correu o mundo, cientistas soaram o alarme – que hoje, assume-se, tinha caráter profético: 'tragédias' semelhantes aconteceriam em outras instituições dada a precariedade da manutenção desses espaços. Hoje, da mesma forma, sem medo de errar, podemos repetir: isso vai voltar a acontecer. A história não se repete mais como farsa, mas como escárnio.

Vivemos em um momento em que pessoas, sem o mínimo pudor, celebram nas redes sociais a queima do acervo, pois ele contaria uma história mentirosa, que não se encaixa a certas visões de mundo. Claro que são apenas uma (barulhenta) minoria, mas a burrice violenta sempre assusta. Tal qual as pessoas que comemoraram as montanhas de livros queimadas nas praças de diversas cidades da Alemanha nazista em 10 de maio de 1933.

Lembrando que burrice não é característica de quem separa sujeito e predicado por vírgula ou não sabe calcular uma raiz quadrada, mas de quem menospreza o conhecimento, chegando a odiar quem o detém ou quem busca seu aprendizado. O burro é aquele que tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre ele próprio. Essas pessoas têm sido essenciais para esse projeto coletivo que destrói o passado para construir um futuro à sua imagem e semelhança.

Nesse contexto, é irônico que o reluzente Museu do Amanhã tenha se tornado o centro das atenções da capital carioca – apesar de sua falta de importância relativa, enquanto o guardião da memória brasileira permanecia esquecido na Quinta da Boa Vista.

Talvez o Museu Nacional, ao se deparar com o momento atual do país, em que o conhecimento científico parece valer menos que achismos e opiniões sem embasamento e no qual fatos históricos são tratados como 'notícias falsas' diante das certezas anônimas e absolutas das redes sociais, tenha simplesmente desistido de resistir. E queimado mais rápido, por conta do desgosto.

O problema não resolvido é que, quando alheio à história de sua própria caminhada, o povo não é povo, mas gado. E, como gado, pode ser tocado por qualquer um. Ver esse prédio em chamas pela TV traz a sensação de que somos um amontoado de mugidos difusos que não tem ideia para onde está indo. Tampouco faz questão de saber."


Sobre este documento
Título
Incêndio do Museu Nacional não é tragédia, mas fruto de um projeto de país

Tipo de documento
Blog

Origem
Leonardo Sakamoto, 03 de setembro de 2018. Disponível em: https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/09/03/incendio-do-museu-nacional-nao-e-tragedia-mas-fruto-de-um-projeto-de-pais/

Créditos
Leonardo Sakamoto



Após ler o texto de Leonardo Sakamoto escolha uma das alternativas:
Alternativas

(A) Práticas políticas que tratam com descaso a pesquisa científica e as formas de registro do passado e da memória negam o exercício pleno da cidadania.
(B) O texto indica a ausência de políticas públicas de manutenção e preservação do patrimônio histórico como principal responsável pelo incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, em setembro de 2018.
(C) Entre os muitos itens consumidos pelo fogo estava o original do mapa étnico-histórico-linguístico elaborado pelo etnólogo alemão Curt Nimuendajú na década de 1940.
(D) Embora dramática, a perda de grande parte das obras e coleções do Museu Nacional pode ser revertida a partir de réplicas e outros materiais simbólicos daqueles que foram destruídos pelo fogo.



QUESTÃO 31


 Leis os excertos abaixo e assinale uma alternativa.

A Boa Nova, 12/05/1877
Jornal


“Que é o enterro civil?
É a negação mais ou menos direta da imortalidade d’alma, que só existe pura e integralmente no espiritualismo cristão.
O enterro civil é, portanto, um atentado sacrílego contra a base de todas as crenças, contra o eixo em torno do qual giram os interesses mais palpitantes da sociedade”.


Sobre este documento

Título
A Boa Nova, 12/05/1877

Tipo de documento
Jornal

Origem
REDAÇÃO. A Boa Nova. Belém, 12 de Maio de 1877, pp. 3. In: SILVA, Erika A. O cotidiano da morte e a secularização dos cemitérios em Belém da segunda metade do século XIX (1850/1891). Dissertação - Mestrado em História - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005, pp. 130.

Créditos
REDAÇÃO. A Boa Nova



A voz do caixeiro, 29/06/1890
Jornal


“Além dos argumentos gerais, já aduzidos para justificarem a coletividade dos decretos, acresce que, destinando-se a missão da Igreja ao preparo do homem viador para os gozos da vida do além túmulo, desde que o espírito abandona seu involutório, nada mais tem ela que ver em seus despojos: então pura matéria, a matéria putrescível em sua composição infectuosa, cai sobre a alçada da polícia sanitária, a quem incumbe especialmente de levar sobre a salubridade pública e, portanto, de empregar os meios profiláticos próprios para a manter inalteráveis, entre os quais figuram o do – quando – e  do – como de – inumações dos cadáveres. Fica, pois, claro que, longe de derrogar prerrogativas da Igreja, a medida adotada aliviou-a de um ônus impertinente que a distraía e sua piedosa missão, que então se restringe a orar pelos que eram de seu grêmio (...)”

Sobre este documento
Título
A voz do caixeiro, 29/06/1890

Tipo de documento
Jornal

Glossário
Viador: indivíduo que anda peregrinando na vida terrena ou transitória (em contraposição ao que já passou à segunda vida ou vida eterna).

Putrescível: que é suscetível de se putrefazer, de apodrecer.

Origem
REDAÇÃO. A voz do caixeiro. Belém, 29 de junho de 1890. In: SILVA, Erika A. O cotidiano da morte e a secularização dos cemitérios em Belém da segunda metade do século XIX (1850/1891). Dissertação - Mestrado em História - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2005, pp. 133.

Créditos
REDAÇÃO. A voz do caixeiro


Alternativas

(A) O processo de secularização dos cemitérios consistia em negar à Igreja sua missão de salvadora das almas, migrando para o Estado esta atividade, o que era amplamente reconhecido pela imprensa belenense.
(B) Os documentos revelam as tensões entre os poderes espiritual e temporal, e as formas de administrar suas divergências visando à convivência entre eles.
(C) Os dois órgãos da imprensa belenense interpretaram o processo de secularização dos cemitérios de formas diversas, respaldando-se em suas visões políticas e religiosas.
(D) A inauguração, em 1850, do primeiro cemitério público do Pará dá início a uma intensa discussão sobre a secularização dos cemitérios, que passou, dentre outras coisas, pela questão da tributação dos enterramentos.



QUESTÃO 32

Em 5 de julho de 2016, Daniel Munduruku fez uma palestra no Programa de Encontros no MASP (São Paulo). Leia partes dessa fala:


Palestra de Daniel Munduruku

Resultado de imagem para DANIEL MUNDURUKU

Palestra
"Daniel Munduruku: (...) Antes de mais nada, gostaria de me apresentar, porque normalmente, quando olham para mim, é comum as pessoas me identificarem com um…
Público: Índio!
Daniel Munduruku: Como?
Público: Índio!
Daniel Munduruku: Com um cara bonito. [risadas] Sim, e depois com um índio também, é verdade. E isso vem com uma imagem que foi sendo construída ao longo desses 500 anos e que gerou na cabeça das pessoas uma visão estereotipada. Dizem que o Daniel parece com um índio: ele tem cara de índio, cabelo de índio, maçãs do rosto de índio, olhinho puxado de índio, e claro, corpo esbelto de índio também [risadas do público], portanto, isso o torna um… índio. E as pessoas insistem em me chamar dessa maneira. Pois bem, apesar de toda essa aparência, de tudo isso que me caracteriza como índio, queria dizer para vocês que eu não sou índio. E mais: não existem índios no Brasil. Tudo isso é uma bobagem. Se estiverem chocados, façam: 'Oooooooh'. [risadas] (...)
Público: Ooooooh!!
Daniel Munduruku: E eu diria mais a vocês: não existem índios no Brasil.
Público: Ooooooh!!
Daniel Munduruku: Muito bem, vocês aprenderam rápido. [risadas no público]. Brincadeiras à parte, quando eu faço essa afirmação, as pessoas realmente ficam impactadas, porque já está muito registrado na cabeça delas que, por causa da minha aparência, eu sou um índio. Mas não é assim que eu me vejo. E não é assim que eu vejo as populações ancestrais do Brasil. O que vocês estão vendo, na verdade, é uma imagem que foi sendo produzida ao longo do tempo. Resolveram nos batizar, ou melhor, nos apelidar, por essa palavrinha (...) É uma palavra que manifesta uma determinada postura das pessoas com relação à minha pessoa. Por isso eu digo que é um apelido que nos colocaram. Não sabiam como nos chamar e disseram que nós éramos os tais dos índios, porque erraram o caminho para chegar às Índias – essa conversa que todo mundo já conhece e que acabou determinando que os habitantes dessas terras se chamariam índios. Correto? E além de ser uma história mal contada, a palavra índio não significa absolutamente nada. Se vocês tiverem curiosidade de olhar num dicionário depois, vão descobrir que a primeira entrada do Aurélio, por exemplo, diz o seguinte: 'É o elemento químico nº 49 da tabela periódica'. Fiquei tão feliz quando soube disso...
[risadas no público]
Porque já era conhecido como preguiçoso, selvagem, canibal, atrasado... E agora, um elemento químico? Me senti orgulhoso, imagina. E essa palavra descrita dessa maneira me suscitou outra questão: 'índio' não é radical de 'indígena'. Não sei se vocês sabiam, mas é só uma mera coincidência chamar alguém de índio ou indígena. A palavra 'índio' não tem significado específico em nenhum dicionário. Quando muito a definição afirma assim: 'Relativo aos primeiros povos'. Ela também não diz quem nós somos. Mas, com o passar do tempo, foi revelando o que as pessoas pensavam a nosso respeito. Esse termo é um apelido. E vocês sabem que não existem apelidos positivos. Todo apelido é uma negação. (...) ao colocarmos um apelido em alguém, afirmamos o que a gente acha do outro. E normalmente a gente acha que o outro é uma coisa ruim. Seja pela condição social, seja pela cor da pele, pela opção sexual ou pelo que for. Sempre vamos jogar no outro a visão que temos dele. As crianças, com quem eu converso muito, são ótimas em colocar apelidos e vocês sabem disso. Os apelidos delas são muito certeiros porque elas sabem machucar. E o apelido serve para isso, para machucar. Eu diria que, ao reforçar a palavra 'índio' nas pessoas, estamos nos reportando também àquilo que pensamos desses grupos humanos a quem chamamos de índios. Quando ouvimos 'índio', normalmente temos duas posturas. A primeira postura é romântica, aquela ideia do bom selvagem de José de Alencar (...): 'Ah, o índio é bacaninha, vive lá no meio da floresta, é o nosso passado, gente boa, gente de bem, olha lá, não tem ganância, vive uma vida social muito tranquila, nem bebe Coca-Cola...'. Esse é o sonho de consumo de todo mundo, não é? Não a Coca-Cola, mas ser índio. E a escola reforça ou reforçou durante muito tempo essa visão (...) Mas a pergunta que não quer calar é: que índio é esse? Qual é o índio que a gente celebra no dia 19 de abril? É o índio do nosso imaginário. Não é um índio real. Esse índio, que foi sendo tramado dentro da nossa formação, não existe. E aí entra a minha afirmação: eu não sou e não existo. Porque esse índio é um ser que foi sendo plantado na nossa história, e nós fomos sendo obrigados a tratá-lo como ser folclórico (...). Provavelmente, a maioria de vocês já ouviu a afirmativa de que índio é preguiçoso, certo? 'Índio atrapalha o progresso, o desenvolvimento'. 'Índio tem muita terra, pra que tanta terra pra esses índios?'. 'Os índios são todos fajutos, não contribuem para o Brasil crescer'. Certamente vocês já ouviram algumas dessas coisas, que, aliás, estão na mídia direto, não é? Esse é o outro olhar, que também mora dentro da gente. Inclusive quando dizemos assim: 'Ah, eu também sou índio, minha vó foi pega, ela era bugre legítima'. Já ouviram essa expressão? Isso mora dentro da gente (...) um pertencimento violento, inclusive. Quando as pessoas me chamam de índio, eu fico irritado. Não gosto, não. E não gosto porque não me identifico com aquilo que falam a meu respeito.
Essa palavra define o que eu não sou. (...) quero lhes dizer que índio eu não sou. Mas eu sou Munduruku. Ser Munduruku é diferente de ser índio. Ser Munduruku é diferente de ser Wapichana, Kaiapó, Xavante, brasileiro. É diferente. Ser Munduruku é ter uma ancestralidade, uma leitura do mundo, um jeito de ser humano diferente dos outros povos. E é a partir desse lugar, do ser Munduruku, que eu falo para vocês. (...) Aliás, talvez a maioria de vocês nunca tenha ouvido falar de Munduruku, não é? A grande maioria nunca ouviu falar essa palavra. Mas certamente vocês já ouviram falar de índio, certo?
Público: Sim.
Daniel Munduruku: Por quê? Ao aprendermos essa palavra, nós não aprendemos a chamar os povos pelo nome. Então, ser Munduruku, nesse processo educativo, foi uma coisa diluída. E o povo Munduruku existe, viu? É um povo grande, com cerca de 15 mil pessoas. Nós estamos presentes em três estados brasileiros: no Pará, de onde eu sou oriundo, com muito orgulho; no Amazonas, que foi onde o povo teve o primeiro contato com a sociedade brasileira e, mais recentemente, um grupo pequeno migrou para o Mato Grosso. Além disso, tem Munduruku aqui em São Paulo, no caso, eu. [risos]
(...) As histórias indígenas, sobretudo, mas as histórias em geral, têm um componente que a gente esquece: normalmente elas são cíclicas ou circulares. O pensamento indígena é um pensamento circular. O que significa isso? Significa que a gente pensa em forma de espiral. Espiral é aquela mola que dá uma volta e se encontra novamente no mesmo ponto. A espiral como pensamento é essa volta ao passado necessária – é importante que a gente faça esse caminho de buscar no passado os sentidos da nossa existência para podermos dar valor ao momento em que a gente vive. O povo indígena não nega a sua memória, não nega a sua história. O tempo inteiro ele busca no passado os sentidos para atualizar sua existência no presente. Então, quando pensamos nas populações indígenas vivendo nos dias de hoje, temos que considerar que elas estão fazendo uma atualização da própria história. Vocês sabem que a cultura é algo dinâmico. Não existe cultura parada no tempo. Aliás, existe sim, é a cultura morta (...) Porque a cultura, por si só, é muito dinâmica. Ela precisa se atualizar para ser, para continuar existindo. Quando pensamos a cultura indígena como uma cultura escrava do passado, congelamos essa cultura. Quando atrelamos o tal do índio a uma imagem do passado, não consideramos que a cultura se movimenta. E essa cultura precisa se movimentar para continuar a existir. Então, quando as populações indígenas dominam os mecanismos, os instrumentos que hoje a sociedade ocidental desenvolveu, eles não fazem outra coisa a não ser atualizar a sua memória. Quando usamos a literatura como instrumento, o vídeo, o violão, que não é um instrumento tradicional indígena, mas que usamos com competência para sofisticar a nossa própria experiência de humanidade, estamos sendo muito mais inteligentes do que as pessoas pensam. Porque é muito interessante pensar que os indígenas se aproveitam mais do conhecimento ocidental do que o Ocidente se aproveita do conhecimento indígena. Ora, quem será mais inteligente nessa história? O indígena faz muito mais esforço para entender o Brasil, do que o Brasil para entender os indígenas. E nisso quem perde é o próprio Brasil, porque cada vez mais os indígenas se articulam para dominar esses instrumentos a fim de manter sua tradição. Falar em tradição faz parecer que perseguimos coisas do passado. Tradição é metodologia. Usamos a tradição como forma de manter nosso padrão educativo. Nós nos atualizamos, mas sem largar a tradição. Então, no fundo, quando falo para vocês, com um instrumento que não é meu, uma língua que não é minha, num lugar que não é meu, meu intuito é trazer a mensagem de um povo ancestral, um povo tradicional. Com isso eu atualizo a memória, não é? Quer dizer, é uma forma de se comunicar com a sociedade brasileira.
(...)"


Sobre este documento
Título
Palestra de Daniel Munduruku

Tipo de documento
Palestra

Origem
“O ato indígena de educar(se), uma conversa com Daniel Munduruku” -  Palestra realizada em 5 de julho de 2016, dentro da ação de difusão da 32ª Bienal: Programa de Encontros no Masp. Disponível em: http://www.bienal.org.br/post/3364

Créditos
Daniel Munduruku

A partir do documento e dos seus conhecimentos, escolha uma alternativa:
Alternativas
(A) Ao fazer uma distinção entre índio, indígena e o povo a que pertence, Munduruku critica o papel da escola que reforça uma visão homogeneizadora dos povos indígenas.
(B) Para o palestrante, a cultura viva e em transformação se opõe à tradição e à ancestralidade, que são a base da identidade indígena.
(C) Esperar que os povos indígenas correspondam a certas expectativas de comportamento é, ao mesmo tempo, uma forma de desconhecimento e de dominação.
(D) Ao negar ser índio, o palestrante esvazia a causa dos indígenas e sua luta recente por participação política e reconhecimento de direitos.



QUESTÃO 33



Parede de Memória I
Instalação




Sobre este documento
Título
Parede de Memória I

Tipo de documento
Instalação

Origem
Rosana Paulino, (1994-2015) Parede de Memória. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Créditos
Rosana Paulino



PAREDE DA MEMÓRIA II - INSTALAÇÃO


Tipo de documento
Instalação

Origem
Rosana Paulino, (1994-2015) Parede de Memória. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Créditos
Rosana Paulino



Alternativas


(A) “Parede de Memória” é uma obra da artista negra Rosana Paulino embasada em uma série de fotografias originalmente produzidas em diferentes momentos e dispostas lado a lado.
(B) Ao construir uma “Parede de memória” baseada em fotos de família, Rosana Paulino remete à noção de ancestralidade individual e coletiva.
(C) A obra marca um ponto de ruptura na trajetória de Paulino, que, depois desse trabalho, passou a usar fotografias ou imagens de rostos como matéria prima.
(D) As fotografias foram transformadas em amuletos (patuás), remetendo, assim, a práticas religiosas de matrizes africanas.





QUESTÃO 34 - TAREFA

Nesta tarefa, fornecemos a vocês documentos históricos.

Vocês já os conhecem, pois apareceram em nossas questões até esse momento.
Sua tarefa é organizá-los de duas formas:

1) Dentro de uma linha de tempo histórico de produção: coloque cada documento dentro da época a que pertence, ou seja, a época em que foi originalmente escrito ou produzido.
2) Dentro de uma linha de tempo histórico do tema abordado: coloque cada documento dentro da época a que se refere, ou seja, a época sobre a qual fala o documento. Observe que um documento pode falar de um século específico ou abordar períodos mais amplos, ou seja, abranger mais de um século.

Para organizá-los, basta selecionar dentre a lista fornecida o período histórico que considera correto.

Atenção!

O sistema não permite o envio da tarefa a menos que todos os documentos estejam relacionados ao seu século de produção e ao século a que se refere.
É necessário confirmar a organização dos documentos depois que a sua equipe terminar a tarefa. Ao clicar em “Salvar Rascunho” o trabalho fica salvo em modo rascunho, e mesmo que você saia da página da Olimpíada e retorne depois, o rascunho estará salvo e disponível.

O botão "Entregar a questão" só fica disponível após todos os documentos serem realacionados a um período de produção e um a que se refere e de ser salvo em rascunho, ou seja, mesmo tendo preenchido toda a tarefa é necessário salvar o rascunho para poder entregar a tarefa. O envio definitivo ocorre apenas quando a equipe clicar em “Entregar a questão”. Após clicar em “Entregar a questão” nenhuma alteração poderá ser feita. Por isso só clique em “Entregar a questão” após ter organizado todos os documentos e ter certeza de que deseja finalizar a tarefa.



Atividade de ordenação de documentos

Um comentário: